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Coluna Vida Vegana: O sangue oculto do Carnaval

Coluna Vida Vegana: O sangue oculto do Carnaval

Data de Publicação: 9 de fevereiro de 2020

Ângela Brito - jornalista, professora de yoga e ativista vegana.  

Instagram: @angela.britoveg

                      O sangue oculto do Carnaval

Se a nossa visão fosse dilatada, se pudéssemos ver os caminhos que determinados itens percorreram até chegar às nossas mãos, veríamos o sangue escorrendo nas fantasias de carnaval que utilizam plumas e penas.

Para enfeitar as cabeças de celebridades e foliões, aves ficam em carne viva. Gansos, faisões, pavões, patos e avestruzes têm suas penas arrancadas com eles vivos e conscientes. Uma das técnicas é chamada zíper. Amarram as patas e puxam as penas como se fosse um zíper. Durante o processo, os animais se debatem e muitos sofrem fraturas. É de uma brutalidade estarrecedora.

Por um segundo, apenas um segundo, coloque-se no lugar destas pobres almas e calcule a dor.  (Sim! Todos os animais têm alma e consciência, e isso é incontestável.) Um avestruz, por viver muito, tem suas penas arrancadas por 40 anos.

O Brasil carrega em seu carma a triste marca de ser um dos maiores importadores de penas e plumas da África do Sul, China e Índia.

Consegue adivinhar a razão de liderarmos triste ranking?  Sim!  Os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Um show de horror. Ignoro solenemente, pois, hoje, não posso mais compactuar e vibrar na mesma frequência.

É curioso pensar que muitas dessas celebridades que estarão adornadas nos desfiles são as mesmas que há alguns meses gritaram pela Amazônia ao primeiro sinal de fumaça (criminosa, diga-se de passagem). São as mesmas que se intitulam ecologistas e dizem amar os animais só porque aparecem com seus cachorrinhos nas revistas fúteis que lhes alimenta o ego e o bolso. A maioria dessas "estrelas" enfeitadas no pseudo luxo do Carnaval às custas da dor alheia são as mesmas que vivem atormentando o país e confundindo as massas com seus discursinhos midiáticos cheios de críticas hipócritas.  Vendem-se como grandes defensoras de valores éticos  mas na hora do Carnaval...  Ah, amigo, na hora do Carnaval, dane-se tudo, o negócio é arrasar na avenida.

 

 

Animal tendo as penas arrancadas a sangue frio, no processo de zíper,  com as patas amarradas

 

 

Cada escola de samba usa em torno de 70 a 150 kg de penas ao preço médio de R$ 2.500 o quilo.

É necessário? Não! Existem opções sintéticas de excelente qualidade. Em 2018 a Águia de Ouro conquistou o primeiro lugar do grupo de acesso de São Paulo sem nenhuma pena ou pluma.

Alguns Projetos de Lei já estão tramitando para impedir o uso de penas. (Ver abaixo)

Mas, até que sejam aprovados, será que não conseguimos dar um basta apenas seguindo a lei do amor e da compaixão?

E não falo apenas das celebridades, não. O mesmo vale para as anônimas que vão ao comércio popular comprar seus brinquinhos e arquinhos de penas para sair nos bloquinhos.

Faltam exatamente 12 dias para a folia tomar conta do país.  Se você de fato ama os animais, não pode ser conivente com isso. Pense bem ao comprar a sua fantasia ou aplaudir, seja no Sambódromo ou pela TV, uma escola de samba passar, pois ela deixa um rastro de sangue oculto pela avenida.

Projetos de Lei

- PL 1097 - Autor: deputado federal Célio Studart, PV/CE - Visa proibir em todo o Brasil a utilização de plumas e penas no Carnaval. O projeto encontra-se em tramitação aguardando o parecer do relator na comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços.

- Projeto de Lei protocolado no Espírito Santo, n° 30/2020 - Autor deputado Capitão Assunção, PSL/ES. Visa proibir o uso de penas e plumas no carnaval do estado.

- Em São Paulo, desde 2018, está valendo a Lei nº 16.803,  projeto do deputado Rogério Nogueira,  DEM,   que proíbe a produção e comercialização de penas e plumas sob multa de R$ 5.000 a R$ 50.000. Resta saber se estão fiscalizando e fazendo cumprir a Lei.