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Simplesmente Cultura: A arte sobreviverá

Data de Publicação: 19 de maio de 2020

Marcio von Kriiger

Jornalista e gestor cultural

Instagram: @vonKriiger

                           A arte sobreviverá

Pesquisa recente desenvolvida pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais revelou que o prejuízo acumulado em três meses de paralisação do setor cultural brasileiro equivale a R$11,1 bilhões, levando em consideração valores arrecadados por cinemas, shows, teatros e visitas a museus. O estudo foi feito tendo como base o gasto médio do brasileiro com consumo cultural.

O valor mais que triplica, R$ 34,5 bilhões, se considerarmos os cancelamentos de grandes eventos só no estado de São Paulo. A mesma pesquisa apontou que a cada R$ 1 perdido no setor cultural, outro R$ 1,60 deixa de circular na economia em geral e que para cada cinco desempregados pela área, são eliminados outros seis postos de trabalho.

O tamanho do prejuízo preocupa ainda mais se considerarmos que a secretaria Nacional de Cultura não esboça nenhuma iniciativa de apoio aos trabalhadores do setor. Neste cenário apocalíptico, um grande ponto de interrogação tem pairado sobre as cabeças dos fazedores de cultura do Brasil e do resto do mundo: como sobreviver no pós-pandemia?

Certamente, será muito difícil sobreviver nos primeiros tempos. Prova disso são as iniciativas que vêm sendo feitas em países como Áustria e Alemanha, onde as casas de espetáculos só poderão receber uma pessoa por cada dez metros quadrados de área construída, o que diminuirá muito a audiência. Por aqui, em São Paulo, a secretaria de Cultura está rascunhando um plano que prevê distância de 1,5m entre os espectadores e exigirá que os artistas usem máscaras, que só poderão ser tiradas em caso de extrema necessidade.

Mais ainda, o projeto proibirá o compartilhamento de objetos entre os artistas e obrigará medição de temperatura diária de todos os envolvidos nas produções e exames médicos a cada 30 dias, além de limpeza semanal dos dutos de ar-condicionado (o que, aliás, já deveria ser feito mesmo antes de qualquer pandemia).

Com isso, a tendência é que o teatro que ressurgirá no pós-covid19 será, em sua maioria, formado por monólogos ou espetáculos com elencos reduzidos. Outra possibilidade que já se cogita no meio teatral é a retomada do teatro de rua e da construção de arenas a céu aberto. Neste sentido, o Teatro Prudential (antigo Teatro Manchete), no Rio de Janeiro, já está transformando sua estrutura. A plateia foi levada para a parte externa do teatro e reduzida em 70% no número de assentos. Desta forma, o fundo do palco, que é retrátil, se tornará a boca de cena.

 

 

O espetáculo Tudo que Coube numa VHS narra uma história de amor em múltiplas plataformas

 

 

Outra solução para os novos tempos é o ressurgimento do bom e velho drive-in, muito conhecido pela turma com mais de 50 anos, onde a plateia acompanha as sessões de cinema dentro de seus automóveis. São Paulo saiu na frente e inaugurou um drive-in em Praia Grande, a 71km de distância da capital. No Rio de Janeiro, a Cidade das Artes está adaptando suas instalações para abrir um drive-in com capacidade para 150 carros, enquanto Curitiba faz planos para transformar a Pedreira Paulo Leminski num drive-in não apenas para exibição de filmes, mas para shows e palestras também.

A única luz que se avista no fim do túnel são, ainda, as apresentações online. O grupo pernambucano Magiluth já está faturando em cima dos espetáculos via internet. A companhia vem apresentando o espetáculo Tudo que Coube numa VHS numa experiência que envolve ligação telefônica, áudio de whatsapp, e-mail, YouTube, Instagram e Spotify . O espectador entra em contato por meio do perfil do Instagram da trupe, combina o horário que quer participar da apresentação e deposita o valor do ingresso (R$ 20). Cada um dos seis artistas da companhia realiza até 12 apresentações por dia, e já existe fila de espera para as próximas semanas.

Nessa onda, até a corrida pelo Oscar se reinventou. Conforme anunciado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, a próxima edição aceitará filmes transmitidos pela internet na disputa pelo troféu, em 2021.

Serão novos tempos, disso ninguém duvida. Para alguns, serão tempos melhores; para outros, nem tanto. A única certeza que se tem é que a arte sobreviverá, se reinventará. Porque sem arte, a vida não é nada.