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Coluna Simplesmente Cultura: Quando o nacionalismo entrou na avenida

Coluna Simplesmente Cultura: Quando o nacionalismo entrou na avenida

Data de Publicação: 14 de fevereiro de 2020 09:16:00

Marcio von Kriiger

Jornalista e gestor cultural.  Instagram: @vonKriiger

          Quando o nacionalismo entrou na avenida

Enfim, chegamos ao carnaval. Aqueles tantos dias em que os problemas dão lugar ao entusiasmo e à alegria, e que os personagens que passam anonimamente pelo resto do ano assumem suas posições de reis e rainhas. Mantendo a tradição dos tempos controversos, as escolas de samba atravessarão a Marques de Sapucaí apresentando enredos com críticas ao desemprego, à falta de moradia e todas as demais mazelas que já se tornaram cotidianas por essas plagas.

Bem diferente daqueles primeiros desfiles das agremiações do Rio de Janeiro, na primeira metade do século passado, tempos em que o governo federal viu nas apresentações carnavalescas uma oportunidade para difundir o amor popular pelos símbolos da pátria e as glórias nacionais.

A ideia começou em 1923. Inspirado pela Semana de 22, que reivindicava uma estética nacionalista e com identidade própria para a arte brasileira, o escritor Coelho Neto publicou uma crônica no Jornal do Brasil apelando para que os ranchos, alguma coisa como o bloquinho carnavalesco da sua rua, apresentassem enredos com temas de caráter nacional. O pedido só foi aceito por uma agremiação, o Ameno Resedá, que em fevereiro de 1924 apresentou-se na Praça Onze com o enredo Hino Nacional. Resultado: perdeu o concurso para outro grupo, cujo enredo descrevia a Vida de Joana d’Arc.

O fracasso foi justificado pelo diretor do Ameno, em carta enviada a Coelho Neto: “ Na verdade, com muito maior facilidade se adapta um enredo histórico que um hino patriótico, onde as imagens nunca foram corporificadas”. Fato é que a semente estava lançada e nova tentativa seria feita alguns anos depois, na década de 30.

Estamos em 1935, ano do primeiro desfile oficial de escolas de samba que contou com o apoio da prefeitura do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Como contrapartida ao suporte, as escolas foram solicitadas a contribuir com a propaganda governista, eminentemente ufanista. A Portela vence o concurso com o enredo O Samba Dominando o Mundo. No ano seguinte, em 1936, é a vez da Unidos da Tijuca vencer o desfile, com o enredo Natureza Bela do Meu Brasil, cristalizando a tendência nacionalista no samba enredo.

 

 

Xica da Silva fez história em 1963

 

 

Três anos depois, em 1938, essa tendência se torna obrigatoriedade imposta pela União das Escolas de Samba. Mas sabe como é a essência transgressora do samba: os sambistas fizeram pouco caso da imposição. Foi só na década de 40 que as escolas incorporariam de fato o espírito da campanha patriótica desencadeada pelo DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, criado pelo Estado Novo. Em 1941, a Portela venceu o desfile com o enredo Dez Anos de Glória, uma homenagem estratégica em que a agremiação enaltecia tanto a sua existência (foi criada em 1930) quanto o período em que Getúlio Vargas estava no poder.

A empreitada rendeu à Portela sete anos consecutivos de vitória, sempre com enredos nacionalistas: A Vida do Samba (1942), em que atribuíam aos índios brasileiros a criação do samba; Carnaval de Guerra (1943), visto que o Brasil só entrou no conflito mundial em  agosto de 1942; Motivos Patrióticos (1944); Brasil Glorioso (1945); Alvorada do Novo Mundo (1946) e Honra ao Mérito (1947), em homenagem a Santos Dumont.

A tendência nacionalista foi interrompida em 1963, quando o Salgueiro fez história na avenida com o enredo Xica da Silva, de Arlindo Rodrigues. A partir daí, tem início um processo gradual de profissionalização de uma manifestação que, até então, se caracterizava pela espontaneidade. O que sucede é uma fase de engrandecimento das agremiações, a partir da década de 70, em que o luxo das fantasias se sobrepõe ao próprio samba, desembocando nos anos 80 quando, a partir da criação do sambódromo (1984), as escolas se transformam em verdadeiras empresas que evoluem num ritmo marcial.

Fato é que hoje, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro (ou até mesmo de São Paulo) tornou-se um espetáculo só possível graças às transmissões televisivas, pelo menos para parte significativa das populações das duas cidades. Felizmente, ainda podemos encontrar a espontaneidade e a transgressão, essenciais ao samba e ao carnaval, naqueles bloquinhos de subúrbio e das cidades de interior. Até porque, meu amigo, como já disse o poeta, o “samba agoniza, mas não morre”. Então, aproveite!