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Não foi nada fácil: a tardia colonização portuguesa e a resistência dos índios goytacazes na Capitania de São Tomé

Não foi nada fácil: a tardia colonização portuguesa e a resistência dos índios goytacazes na Capitania de São Tomé

Data de Publicação: 31 de maio de 2020 09:19:00
Parte 1

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com

 

A imagem que nós temos dos primeiros habitantes do Brasil, oriunda de livros escolares e pinturas diretamente ligadas ao colonizador português de que o homem branco aqui chegou, dominou o povo indígena, catequizando sob a égide do cristianismo e introduzindo os nativos na cultura européia, rapidamente aceita pelos silvícolas, que não demonstraram nenhuma resistência, é totalmente absurda, equivocada e infundada, já que apesar dos pesares, eles não se deixaram dominar facilmente pelo homem branco.

Algumas tribos habitantes do território brasileiro antes mesmo da chegada dos invasores europeus, já guerreavam entre si. Uma delas, a dos Goytacazes, será destacada neste trabalho, por suas peculiaridades e por serem responsáveis diretos da não colonização do solo campista nos primeiros momentos da expansão colonialista brasileira. Os índios foram humilhados, massacrados e exterminados em seu próprio quinhão, no qual eles foram os senhores absolutos por vários séculos, anteriores da chegada do europeu.

Outro pensamento difundido sem base, que acabou sendo aceito por muitos como verdade, é de que os índios formavam uma única nação homogênea, os Tupi-Guaranis, mas não, havia muitos povos diferentes que viviam cada qual em seu território e em determinados locais, eles nem chagavam a se encontrarem, e em outros, mantinham troca de víveres e em muitos casos, travavam batalhas, já que muitos deles eram tribos tradicionalmente de guerreiros, como os Goytacás.

Por que a Capitania de São Tomé foi uma das últimas a cair realmente na mão colonizadora do português, tendo inclusive dois donatários aberto mão dessas terras? A história oficial esconde a luta dos indígenas na tentativa de resistir ao domínio do homem branco em todo o território que abrangia a capitania, que ia das margens do Rio Itabapoana até o entorno da Lagoa Feia, na divisa do Norte Fluminense, com a Região dos Lagos.

 

 

 

 

OS GOYTACAZES       

Os Índios Goytacás, descrito por alguns autores como Goytacazes, Goitacaz, Goitacá e ainda, como Uaitacás (Hemming e Moura, 2007, p. 35) foram povos guerreiros, que habitaram toda a Planície que engloba o sul do atual Espírito Santo, Norte Fluminense e Região dos Lagos, territórios banhados pelos Rios Paraíba do Sul e Itabapoana, além de seus inúmeros afluentes e de muitas lagoas, o que representou a base de sua alimentação e a facilidade com que estes se tornaram exímios nadadores.

A tradução de seu nome é motivo de divergência entre vários autores, mas as denominações mais usuais são “Índios Nadadores” e “corredores da Mata”, esta menos provável, já que a região habitada por eles era (e ainda é) formada predominantemente por planícies e planaltos, com vegetação rasteira e arbustos, que formavam seu habitat natural junto aos rios e praias.

No clássico romance O Guarani, de José de Alencar, (1986, p. 125) o personagem central da trama, é indagado sobre sua nação de origem e responde ser um Goitacá, e completa dizendo seu nome “Peri”, filho de Ararê, primeiro “Cacique” de sua tribo.

Fisicamente eram bem diferentes de outras tribos litorâneas, pois, segundo Lamego (1945, p. 71), os Goytacazes possuíam a pele um pouco mais clara, estatura alta e mais robustez no corpo, que era bem forte, o que levou a serem chamados de “tigres humanos” e devido a essa força, conseguiam se atracar com peixes maiores, como filhotes de tubarão, com os braços em sua busca pela alimentação. Outra peculiaridade desta tribo são os longos cabelos compridos, mas que eram raspados no alto da cabeça; Adornavam o corpo e utensílios com penas de aves e usavam pigmentos coloridos extraídos do Jenipapo.

Seguindo a impressão de viajantes, que anotavam informações em seus diários, Silva (1984, p. 10) nos diz que:

O Inglês Southey, citado por Augusto de Carvalho, diz que o Goitacáz é mais claro, alto e robusto que outros índios do litoral, falando diversas línguas. Talvez seja do “tronco dos Aymorés”. Já o lusitano Simão de Vasconcelos Goitacaz é “gente agigantada, membruda e forçosa”. O inglês Knivet fala da seguinte forma: “Seu porte é sujo e asqueroso, seu olhar feroz e sua fisionomia bruta fazem dele o povo mais odioso do universo”. O francês Saint-Hilare doz dos Goytacazes: “Reuniam a um talhe gigantesco uma força extraordinária, e sabiam manejar o arco com destreza. Outro Historiador (Gabriel Soares), diz que “na feição do corpo” se parecem com o Tupinambá. E, “este gentio tem a cor mais clara que os que dissemos atrás, Tupiniquins, Tamoios e Papanases.

Guerreavam com tribos vizinhas, seus principais rivais eram os Guarulhos, tribo menos numerosa, que habitavam a mesma região, assim como, os Tamoios, Aimorés, Guaranis, Puris, Coroados, entre outras tribos que viviam em áreas próximas e encontros eram sempre findados em violentos combates.

Citados em diversas literaturas como canibais, fato também negado por muitos historiadores, já que o ambiente que o cercava era rico em alimentação, pois além da terra, tinham a sua disposição rios, lagos e o oceano, fator que minimiza a teoria antropofágica dada aos Goytacaz, que existiu da mesma forma que em outras tribos, como forma de “incorporar” a força do inimigo morto em batalhas.

A ingestão da carne humana tinha mais conotação moral e religiosa do que fins alimentícios e era comum, após a “degustação”, empilhar ossos de seus inimigos na frente de sua maloca e uma família adquiria prestígio devido ao tamanho de sua pilha. (HEMMING e MOURA, 2007, p. 153).

Os Goytacazes resistiram e mantiveram seu território praticamente intacto da nociva presença devastadora do colonizador, por pouco mais de um século, tendo feito inclusive dois donatários abdicarem de suas sesmarias por não terem conseguido combatê-los.

Aos poucos e a partir da presença dos sete capitães é que foram perdendo seu espaço, pois armas de fogo e roupas contaminadas com “doenças do homem branco”, desconhecidas entre a tribo, foram usadas contra os Goytacazes, que foram sendo combatidos aos poucos.

O último grupo organizado que se teve notícia, fugiu da praia do Farol no início do Século XVIII e foram alcançados na localidade que se chamaria São Gonçalo, hoje Distrito de Goytacazes, em “homenagem” à valente tribo que ali findara cansados, doentes e sem nenhuma resistência, foram mortos impiedosamente e riscados para sempre do mapa.

Hoje, os Goytacás são considerados extintos e poucos resquícios de sua vida restaram para a contemporaneidade, ficando principalmente impressões de historiadores e relatos de alguns escritores.

 

Primeira parte deste material. No decorrer da semana será publicada a parte 2.