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Não foi nada fácil: a tardia colonização portuguesa e a resistência dos índios goytacazes na Capitania de São Tomé

Não foi nada fácil: a tardia colonização portuguesa e a resistência dos índios goytacazes na Capitania de São Tomé

Data de Publicação: 3 de junho de 2020 12:36:00
Parte 2

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com
 

 

PERO DE GÓES E A CAPITANIA DE SÃO TOMÉ

A Capitania de São Tomé foi uma das quinze em que o Brasil Colônia foi dividido para melhor administração feita pela Coroa Portuguesa, que entregou cada Capitania a um donatário, que era o responsável por seu desenvolvimento, exploração e obediência à Corte. Esta capitania, que depois passaria a ser chamada de Parahyba do Sul, foi doada a Pero de Góes da Silveira, um donatário relativamente sem muitas posses, que desembarcou no Brasil em 1531 na comitiva de Martim Afonso de Souza e com este foi para a capitania de São Vicente, onde administrou plantações de cana de açúcar, construções de engenhos e criação de gado, antes de receber suas próprias terras, através de Carta Doação, assinada pelo Rei Dom João III, em 28 de agosto de 1534.

Em Carvalho (1988, p.56), notamos que em 1538 é fundado, o primeiro povoado, denominado Vila da Rainha, nas margens do Rio Itabapoana, para servir de entreposto aos passantes daquele território e ali faz as primeiras plantações de cana de açúcar e introduz, de forma pioneira, o gado na região, construindo um pequeno engenho movido por uma roda d’água. Sobre esta empreitada, Schwartz (1998, p. 31) nos diz que:

A expedição de Martim Afonso de Sousa, enviada ao país em 1532 para livrar a costa dos navios franceses e também com fins colonizadores, trouxe mudas de cana. (...) Na Paraíba do Sul, o donatário Pero de Goes, que já havia construído engenhos em São Vicente, ergueu duas pequenas moendas de tração animal e, por fim, instalou um engenho movido a água, utilizando-se de capital português.

Desde as primeiras tentativas de fixar residências na região, Pero e sua comitiva sofreu ataques por parte dos índios. Vale lembrar aqui, que o donatário não vivia no lugar e continuava com sua vida de fazendeiro em São Vicente, como homem de confiança do então governador do Brasil, Martim Afonso de Souza.

Schwartz (1998, p. 36) salienta que os primeiros engenhos brasileiros foram pequenos, a maioria era do tipo trapiche, movidos por bois ou cavalos e apenas alguns usavam força hidráulica, em geral os construídos pelos próprios donatários, Pois os custos envolvidos na feitura da grande roda d’água e do sistema de calhas, que conduzia a água até o local apropriado, eram bem elevados para a maioria dos colonos e conclui dizendo que a capacidade de produção de açúcar na capitania de Paraíba do Sul, em 1540 era de apenas mil arrobas anuais cada um, ou seja, menos de quinze toneladas. Lara (1988, p. 127), nos informa que em 1547, o engenho dava conta de produzir “Um par de mil arrobas de açúcar nosso” e confirma que as primeiras mudas de cana e cabeças de gado, chegam através de São Vicente.

Algum sucesso as engenhocas de São Tomé conseguiram, pois Schwartz (1998) fala acerca da contratação por parte dos donatários das capitanias, de mestre no fabrico do açúcar por altos valores, já que esse produto era o mais valorizado, sendo inclusive, o principal motivo da colonização e escravidão no Brasil. O autor, sobre esse assunto comenta que:

Os donatários e senhores de engenho às vezes não poupavam esforços para conseguir tais especialistas. Pero de Goes, donatário da Paraíba do Sul, mandou buscar técnicos no fabrico do açúcar e artesãos em outras capitanias. Um homem foi levado àquela capitania para construir um engenho com um salário de um cruzado (400 réis) por dia. Também foram contratados feitores e um mestre de açúcar, este último com um contrato para receber 60 mil réis por ano, durante três anos. Pero de Goes estava tão interessado em conservar esse homem a seu serviço que lhe pagou já no primeiro ano, mesmo não estando o engenho em funcionamento; procurou, além disso, encontrar um meio de obrigá-lo legalmente a cumprir o contrato. (SCHWARTZ, 1998, p. 37).

Por inúmeras vezes, os membros da comitiva de Pero precisaram deixar a pequena vila, após ataques dos índios, que chegaram a matar 30 homens nos dois grandes ataques que cometeram no local, assim, os que conseguiram fugir do primeiro ataque foram buscar abrigo nas fazendas do donatário, em São Vicente, a fim de conseguir mais homens para mais uma vez seguir com a vida nas novas terras. Após o segundo ataque, não se conseguia mais homens para habitar o lugar que era o lar dos Goytacazes e assim, Pero abandona o Brasil em 1570 e volta para Portugal, onde enfrentou diversos problemas com dívidas contraídas na aventura de ser o senhor da Capitania de São Tomé, que na verdade já era de outros senhores, os índios Goytacazes, que bravamente resistiram ao domínio do colonizador.

As terras ficaram abandonadas por alguns anos até que em 1626, Gil de Góes, filho de Pero, resolve se aventurar na mesma empreitada em que seu pai se envolvera, anos atrás, e consegue autorização Régia, já que além das terras estarem devolutas, era descendente direto do donatário. E assim, Gil parte para o Novo Mundo com um pequeno grupo, na esperança de que sua tentativa de desenvolver a capitania fosse mais bem sucedida do que a tentativa de seu pai.

Ao chegar, Gil encontra nas margens do Itabapoana, plantações de cana que se alastraram ao longo dos anos e inúmeras cabeças de gado, fruto do trabalho inicial de Pero e desenvolvido em terras abandonadas. Gil montou novamente um pequeno vilarejo, com a mesma denominação de Vila da Rainha, mas um pouco distante da original e ali começa a sua tentativa de colonizar a região.

Também sendo atacado constantemente pelos Goytacazes, Gil renuncia de vez a terra e deixa o Brasil com parte de seus homens, já que alguns se aventurariam por outras bandas e assim, a posse da Capitania de São Tomé retorna ao governo português, que depois a incorpora à Capitania do Rio de Janeiro. 

 Nas terras de São Tomé, se desenvolveria uma das principais cidades brasileiras até a década de 1930, denominada Campos dos Goytacazes, em alusão à nação indígena que um dia dominara o lugar, que cresceu movida a cana de açúcar e ao trabalho escravo e se originou anos após a renúncia de Gil, quando essas terras, foram entregues para sete capitães acostumados com batalhas, que ganharam o quinhão, como presente por serviços prestados para a Coroa e partiram para a posse, que por muito tempo foi sendo passada aos seus descendentes, que então conseguiram dizimar os habitantes nativos, como aponta Silva (2004, p. 13).

Caldo de cana envenenado nos cochos foi arma muito usada contra os Goytacazes. Mas o que provocou as maiores devastações foi o uso de roupas infectadas de varíola, o que devastou tribos inteiras. Os europeus apanhavam as roupas usadas pelos doentes e as colocavam nas trilhas dos Goytacazes, os índios procuraram os brancos, em busca de remédios.

A crescente prosperidade da vila despertou a ganância de alguns homens, liderados pelo Visconde de Asseca, que graças a prestígios junto à corte, conseguiu para si e para seus herdeiros, a posse do lugar, habitado pelos descendentes dos sete capitães, os campistas, fato que gerou Inúmeras batalhas que durariam quase duzentos anos, recheada de crueldade e carnificina, como nos mostra Lamego (1945, p. 239) e a partir daí não parou mais, o desenvolvimento da futura cidade que se ergueria no solo que fora território quase intransponível dos valentes Goytacazes.

 

 

 

 

CONCLUSÃO     

O índio Goytacá, praticamente desconhecido do povo brasileiro na contemporaneidade, não se rendeu ao homem branco e resistiu até não agüentar mais e sucumbiu dizimado pela ganância dos conquistadores.

Mas para apoderar-se de suas planícies, muitos homens deixaram seu sangue e foi preciso mais de cem anos para que as terras que faziam parte da Capitania de São Tomé fossem de fato possessão portuguesa, já que por resistência dos Goytacazes, até mesmo dois donatários abriram mão do seu direito de posse da referida capitania, fato inédito em nossa história colonial.

Se os Goytacazes tinham noção da devastação que os colonizadores fariam em seu habitat natural ou se eles simplesmente não queriam companhia, nunca saberemos, mas o importante é deixar registrado que apesar dos pesares, os índios locais não foram tão amistosos quanto os de algumas regiões brasileiras, que desde os primeiros passos do português na Terra Brasilis se aproximaram do homem branco e tiveram a doce ilusão de que se beneficiaria com sua “visita”.

Os motivos para que São Tomé fosse um dos bastiões de resistência indígena nas capitanias brasileiras são: era única onde um donatário desistiu das terras por não conseguir combater os índios (na verdade foram dois, Pero e depois, Gil), aliados com o fator de que nas áreas da referida capitania, existia uma nação indígena com características peculiares, que uniam o conhecimento completo da região em que habitavam, com os costumes guerreiros e ainda dispunha de uma grande força física e o exímio manuseio de facões, lanças, arcos e flechas, que os motivaram em não se deixarem dominar pelo invasor e resistir enquanto pudessem, por mais de um século, até as terras ficarem na guarda dos sete capitães, que dispunham de material bélico e humano superior aos homens que tentaram as primeiras colonizações.