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História e Futebol: De mãos dadas há mais de um século

História e Futebol: De mãos dadas há mais de um século

Data de Publicação: 16 de junho de 2020 08:00:00

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com
 

 

História e Futebol: De mãos dadas há mais de um século

Clássico Celtic e Glasgow Rangers, disputa entre católicos e protestantes, na Escócia. Foto: Getty Imagens
 

Este texto inaugura uma série que irá contar através do futebol, histórias de Guerras, amores, lutas sociais, mostrando que o velho esporte bretão é muito mais do que um simples jogo e sim, um transformador social e agente da história.

Caminhando para seu segundo século de existência, o futebol se faz presente em quase todas as partes do globo terrestre, desde o gelado Pólo Norte até as mais remotas ilhas da Oceania, fazendo assim, com que a Federação Internacional de Futebol (FIFA), tenha mais países filiados do que a Organizações das Nações Unidas (ONU)[1].  

O futebol tornou-se um dos elementos decisivos na formação da identidade nacional, que não se limita mais em se ter um território, uma língua e um governo, sendo essencial ter, também, uma equipe nacional de futebol. Assim, o velho esporte bretão avança a barreira esportiva, tornando-se um meio de sociabilidade, influenciador político e principalmente econômico, dado as altas cifras que giram diretamente e indiretamente em seu entorno.

O futebol moderno teve suas origens na Inglaterra, em meados do século XIX, embora exista indícios de que na antiguidade, os chineses, japoneses, romanos, entre outros povos, já praticavam jogos com bola, seja para treinamento de exércitos, distração da nobreza, lazer da população e até mesmo, profissionalmente.

A evolução do futebol foi rapidamente ganhando projeção e não tardaria a ultrapassar os limites do Reino Unido, que já em 1870 possuíam federações nacionais de futebol na Inglaterra, Irlanda, Escócia e País de Gales.

Considerado por muitos, como assunto de menor importância o futebol fica longe deste rótulo, pois é um influenciador e modelador da sociedade em suas mais diferentes esferas, como a exploração popular e política, muito utilizada no período das ditaduras militares instauradas na América Latina a partir de meados dos anos de 1960, quando a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo do México em 1970 serviu como “garoto propaganda” de um país que “dava certo” e conhecia índices de crescimento nunca antes visto, chamado de “Milagre Econômico”, à custa de um endividamento sem precedentes que deixaria duras marcas após a abertura política.

Essa apropriação das vitórias esportivas já vinha de muito antes, e um bom exemplo disso é que nas vésperas da final da Copa do mundo de 1934, realizada na Itália, a Seleção da casa teria recebido um bilhete escrito pelo ditador Benito Mussolini. Este “recado” foi um “alerta” de que a vitória deveria vir a qualquer custo, pois o regime precisava se mostrar vencedor e não poupou esforços para sediar o evento, construiu uma boa infra-estrutura e também providenciou a naturalização de diversos jogadores de outras nacionalidades para fortalecer seu time.

Com enorme caráter propagandístico, o esporte deixa somente no papel, os ideias do Barão de Coubertain[2], pois podemos lembrar os Jogos Olímpicos de Berlim (1936) em que Adolph Hitler pretendia justificar e difundir a supremacia ariana, frustrada com quatro triunfos do negro americano Jesse Owens. Como esquecer também a Copa de 1978 realizada na Argentina, governada com mãos de ferro pelo General Vidella, vencida pelo time da casa e que contou com estranhos resultados para vencer seu primeiro mundial ou ainda a utilização do Estádio Nacional de Santiago, no Chile, para prender e fuzilar milhares de opositores do regime ditatorial imposto pelo General Pinochet?

O futebol gera também, questões no mínimo curiosas, como a seleção palestina, embora este povo não se configure como país com território oficialmente reconhecido ou o fato da Seleção de Israel, que geopoliticamente se encontra na Ásia, porém participa das competições organizadas pela Federação Europeia (UEFA), por questões político-religiosas, ou ainda a seleção do Vaticano, que disputa jogos não oficiais, pois é formada pela Guarda Suíça e alguns membros da prelazia.

No campo da economia é possível verificar a quantidade de anúncios vinculados ao futebol, desde o final dos anos de 1930, quando foi lançado o chocolate “Diamante Negro”, já mencionado nas páginas anteriores, sem contar com os astronômicos salários dos jogadores e as vultosas somas de dinheiro que envolve o futebol na atualidade, pegando como exemplo a Lei Brasileira que proibia a venda de bebidas alcoólicas dentro e nas imediações dos estádios e que por “sugestão” da FIFA, precisou ser revogada para o período da Copa de 2014 no Brasil, não por acaso, a marca de cerveja Bhrama foi uma das principais patrocinadoras do evento.

Podemos lembrar aqui, que duas marcas mundialmente famosas mudaram suas logomarcas motivadas pela paixão futebolística, e lógico, com intuito de não perder preciosas fatias de mercado, como aconteceu no Brasil na década de 1980, quando a logomarca da Coca-Cola, tradicionalmente vermelha, apareceu preta na camisa do Grêmio de Porto Alegre que não aceitou ter em seu “manto” as cores do rival Internacional ou ainda a rede fast-food McDonald que precisou instalar sua identidade visual em preto e branco na sede do Besikitas, uma das forças do futebol turco, que tem o vermelho e amarelo (as cores da cadeia de lanchonete) como odiosas, pois são as cores do Galatassaray, seu principal concorrente.

No campo político e da identidade nacional podemos destacar a rivalidade entre os clubes iugoslavos, pais resultante da unificação de territórios de diversas etnias e rivais históricos que tinham no futebol sua válvula de escape a favor do movimento separatista de sua região, o que acabou ocorrendo no fim dos anos de 1990[3], principalmente quando se enfrentavam os principais clubes do antigo país, o Dínamo de Zagreb, na Croácia, contra o time sérvio do Estrela Vermelha, de Belgrado. Ou o sentimento nacionalista ucraniano depositado no Dínamo de Kiev, durante a anexação do país à União Soviética ou o sentido de “ser catalão” emanados pelos barcelonistas, que carrega consigo o forte slogan em língua catalã "Més que un club" (Mais que um Clube) principalmente quando enfrentava os times de Madrid (Real e Atlético) ou seu rival citadino, o Español.

Sem contar ainda com a batalha campal (e extra-campo) entre católicos e protestantes, que vitimou milhares de pessoas ao longo de séculos e que se catalisa em cada encontro entre Celtic e Glasgow Rangers, clube este, que até 1989 não permitia a entrada de católicos em seus quadros; Ou ainda o acirramento doa ânimos entre os vizinhos El Salvador e Honduras, que viviam as turras por questões econômicas e migratórias, por causa das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, culminando em um confronto bélico entre os dois países, tema central deste trabalho.

Através de alguns exemplos acima citados, percebemos o quanto de uma sociedade pode ser conhecida e estudada através das peculiaridades e histórias futebolísticas, um campo amplo que ainda pode e muito ser explorada pelas ciências humanas e sociais e provando assim que o tema não é tão banal como muitos ainda pensam.

 

 


[1] Até dezembro de 2012 a FIFA contava com 208 Países filiados (www.fifa.com), enquanto na mesma data, a ONU possuía 193 membros (http://www.onu.org.br/conheca-a-onu/paises-membros/).

[2] Pierre de Frédy (1863-1937), o Barão de Coubertin, organizou um congresso internacional em 23 de Junho de 1894 na Universidade de Sorbonne em Paris e propôs que fosse reinstituída a tradição de realizar um evento desportivo internacional periódico, inspirado no que se fazia na Grécia antiga, quando nasceu os Jogos Olímpicos da Era Moderna. Este congresso levou também à constituição do Comité Olímpico Internacional (COI), que organizaria o evento a cada quatro anos. Sua famosa frase “O Importante é Competir” se tornou um slogan dos jogos. Fonte: www.travinha.com.br/eventos-desportivos/137-jogos-olimpicos-de-verao/171-barao-de-coubertin-o-pai-dos-jogos-olimpicos

[3] A Iugoslávia se desintegrou no início dos anos de 1990 dando origem a Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Sérvia.