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Cem horas de conflitos agravados pela bola: Honduras x El Salvador na guerra do futebol

Cem horas de conflitos agravados pela bola: Honduras x El Salvador na guerra do futebol

Data de Publicação: 28 de junho de 2020

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com

 

 

Cem horas de conflitos agravados pela bola: Honduras x El Salvador na guerra do futebol 

 

Com relações estremecidas por questões migratórias, Honduras e El Salvador protagonizaram um conflito bélico que durou três meses e causou destruição nos dois países vizinhos, agravado pela disputa entre as duas seleções pela vaga na Copa do Mundo de 1970, realizada no México. Este episódio ficou conhecido como “Guerra dos Cem Dias” ou “A Guerra do Futebol”.

Vizinhos e com uma população quase que igual nos fins de 1960, cerca de três milhões e duzentos mil habitantes El Salvador e Honduras viviam um grande clima de tensão, já que ao longo dos anos, milhares de salvadorenhos migraram para o país vizinho, com um território cinco vezes maior, em busca de melhores oportunidades de trabalho, sobretudo, nas funções agrárias, dominadas por empresas norte americanas.

Em pouco tempo, os nativos começaram a ver os imigrantes vizinhos como invasores e ferrenhos concorrentes de empregos e das terras hondurenhas, o que levou o governo local a promulgar uma Lei Agrária determinando que somente hondurenhos pudessem usufruir das terras no país e umas séries de ações começaram a serem colocadas em prática com a finalidade de expulsar os indesejados salvadorenhos.     

Em meio a estas turbulências, aconteciam as eliminatórias para a Copa do Mundo de Futebol a ser realizada no ano seguinte, no México e quis o destino que em meio aos embates nos campos políticos, econômicos e sociais entre os dois países fronteiriços, que somente um deles conquistaria dentro das quatro linhas, o direito de participar da fase final das eliminatórias da Confederação da América Central e Caribe (Concacaf), que indicaria o representante do continente no mundial e ter o gostinho de deixar o rival de fora da disputa do evento futebolístico mais importante do planeta, já naquela época.

Apenas o campeão das eliminatórias da Concacaf garantiria uma vaga no Mundial do ano seguinte, já que o México, que não costumava dar chance para os rivais no continente, já estava garantido por ser o anfitrião da Copa. Na outra semifinal, Haiti e Estados Unidos duelavam.  Nesse quadro de tensões, como tantas e tantas vezes, o futebol seria o elemento catalisador de conflitos que ultrapassavam as quatro linhas do campo de jogo. 

 

A primeira partida da grande decisão aconteceu em 8 de junho de 1969, em Tegucigalpa, capital de Honduras, vencida pela equipe local, com gol no último minuto marcado pelo atacante Roberto Cardona em cima de um adversário que não conseguiu dormir na noite anterior, por causa de baderna dos torcedores hondurenhos que gritavam, buzinavam e saltavam rojões com o claro propósito de incomodar os jogadores salvadorenhos.

Após a derrota, Amélia Bolaños uma jovem de 18 anos, residente em San Salvador que assistiu o jogo pela televisão, apanhou uma arma na gaveta da escrivaninha de seu pai e suicidou-se com um tiro no coração. “A jovem não suportou ver seu país posto de joelhos, escreveu, no dia seguinte, El Nacional, diário de El Salvador.

O cortejo fúnebre de Bolaños foi acompanhado por um destacamento militar, com todas as honras de uma “heroína nacional”, com o caixão coberto com uma bandeira de El Salvador e a presença do presidente da república, Fidel Sanchez Hernandez, acompanhado de todos seus ministros e os jogadores da seleção que retornara ao país em vôo especial, na mesma madrugada, depois de serem hostilizados no país vizinho mesmo findada a partida. O ódio aflorava e a guerra estava declarada, embora ainda não oficialmente.

Como não poderia deixar de ser, a partida de volta, ocorrida uma semana depois foi sob tensão e hostilidades, torcedores salvadorenhos estilhaçaram as vidraças do hotel em que estava a delegação hondurenha e atiravam ovos podres, ratos mortos, cantos de guerra e exibição de vários cartazes com a foto de Amélia Bolaños. Momentos antes do início da partida, o hino de Honduras foi copiosamente vaiado pelos presentes no estádio e no lugar da bandeira do país foi hasteado um pano sujo.

Tais fatos abalaram psicologicamente os jogadores hondurenhos e não conseguiram se encontrar em campo e perderam por 3X0, o que forçava um jogo extra para desempate, em campo neutro. O treinador hondurenho, Mário Griffin declarou “graças a Deus” que seu time tinha perdido, diante do clima que encontrou, chegou a temer o pior se Honduras tivesse vencido novamente e no campo do rival.

A comemoração salvadorenha foi intensa e violenta pelas ruas de todo o país, cerca de 150 carros suspeitos de serem de torcedores hondurenhos foram apedrejados ou queimados, e duas mortes foram anotadas, além de diversas pessoas feridas terem dado entrada nos hospitais locais. Horas depois do jogo a fronteira entre os dois países foi fechada e o governo de El Salvador acusou Honduras de genocídio e rompeu relações comerciais e diplomáticas com os vizinhos.

No dia 27 de junho, a terceira e decisiva partida entre as duas seleções aconteceu no Estádio Azteca, na Cidade do México, que seria o palco da conquista do tricampeonato conquistado pelo Brasil. O jogo, cercado de tensão e expectativa foi objeto de muito cuidado dos anfitriões da Copa, empenhado em demonstrar a capacidade de suas instalações e a competência de suas equipes de segurança.

O número de torcedores no estádio foi limitado, com a infiltração de agentes especiais nas duas torcidas. Os cerca de 15.000 salvadorenhos presentes no estádio gritaram “Assassinos” repetidamente, quando os jogadores de Honduras entraram em campo. Após empate em dois gols no tempo normal, Rodriguez fez o terceiro gol salvadorenho e decretou a vitória para sua equipe. Ao fim do jogo, policiais surgiram de todos os lados, garantindo a segurança nas cercanias do estádio para impedir possíveis incidentes.

No dia 14 de julho, o exército de El Salvador bombardeou quatro cidades hondurenhas, incluindo Tegucigalpa iniciando um conflito que duraram quatro dias, daí o nome, “Guerra dos Cem Dias”, que resultou em várias cidades e vilas destruídas, deixando milhares de desabrigados nos dois países.

A guerra só terminou com a intervenção da Organização dos Estados Americanos (OEA) e a criação em 1971, de uma zona desmilitarizada, porém, oficialmente, um tratado de paz foi assinado somente uma década depois, em outubro de 1980, porém suas repercussões permaneceram em evidência ainda durante muitos anos.

Na final decisiva para classificação para o Mundial do México, El Salvador assegurou a vaga ao vencer em casa, o Haiti por 4 x 1, após empate em 2 x 2 na partida de ida e assim, representou a Concacaf, juntamente com os anfitriões da Copa.

No Mundial, a seleção salvadorenha mostrou toda sua fragilidade e que a classificação fora sua maior vitória, pois seus jogadores mal preparados e mal remunerados, aliados com a baixa qualidade técnica comparada com seus adversários, foi eliminada logo na primeira fase da competição, perdendo os três jogos que disputou.

Compondo o Grupo 1, sediado na capital do país, junto com União Soviética, Bélgica e os donos da casa, a equipe salvadorenha jogou no Estádio Azteca, palco da grande final, em que o Brasil conquistou seu Tri-Campeonato, não marcando nem um gol se quer e assim, se despediu da competição[1].

A Federação de Futebol de El Salvador foi convidada para jogar a Copa do Mundo de 1950 no Brasil, mas declinou do convite, assim como não participou das eliminatórias para as Copas de 1954 (Alemanha), 1958 (Suécia), 1962 (Chile) e 1966 (Inglaterra) motivadas por problemas financeiros, pois a equipe jamais tinha jogado tão longe de casa antes da Copa do México.

Na estreia hondurenha em Copas do Mundo, em 1982 na Espanha, curiosamente contou também com a presença de El Salvador como os dois representantes da Concacaf, quando ambos se classificaram, deixando para trás nas eliminatórias, a sempre favorita seleção mexicana e não houve registros de conflitos em nenhuma das quatro partidas entre Honduras e El Salvador, que desde a primeira fase das classificatórias estiveram no mesmo grupo, mostrando assim que o conflito tinha ficado mesmo no passado.

El Salvador disputou sua segunda e última Copa na Espanha, quando compôs o Grupo C e repetiu a campanha no México, quando sofreu três derrotas em três jogos, e protagonizou o recorde negativo em Mundiais de maior número de gols levados em uma só partida, quando perdeu para a Hungria por 10 x 1, no dia 15 de junho, e completou sua campanha com derrotas para Bélgica por 1 x 0 (19/06) e Argentina 2 x 0 (23/06).

Em seu primeiro Mundial, os hondurenhos estiveram no Grupo E, e fizeram uma campanha um pouco melhor que seus vizinhos, embora insuficiente para avançar para a fase seguinte da competição. Empatou na estréia com a Espanha, donos da casa, em 1 x 1 (16/06), repetindo o placar contra a Irlanda do Norte (21/06) e perdeu por 1 x 0 para a Iugoslávia (25/06). A seleção de Honduras voltaria a disputar as Copas do Mundo de 2010, na África do Sul e a de 2014, no Brasil.

Embora sejam vizinhos e no passado tenham protagonizado uma guerra, embora muito rápida Honduras avançou um pouco mais no cenário futebolístico da Concacaf e não vê El Salvador como o principal rival, papel que cabe a Costa Rica com que rivaliza no segundo escalão da América do Norte, Central e Caribe, que tem no México e Estados Unidos seus principais expoentes.

No campo diplomático, as relações entre os dois países vizinhos foram restabelecidas pouco depois do conflito, embora casualmente haja incidentes, principalmente nas áreas fronteiriças.

Podemos verificar assim, que na contemporaneidade os estudos sobre futebol não passa de maneira nenhuma pela banalidade ou pela alienação, como por muito tempo foi relegado, pois o velho esporte bretão, objeto das ciências sociais como espelho da realidade e de nossa sociedade nos direciona para eventos antes analisados apenas pelo viés político, econômico ou social.

Embora estremecidas por questões migratórias, as relações entre Honduras e El Salvador foram agravadas por uma partida de futebol que canalizou no sentimento de cada torcedor seu nacionalismo mais exacerbado que extravasou para fora dos limites das quatro linhas, culminando em um conflito bélico.

 

[1] A participação salvadorenha em sua primeira Copa do Mundo foi com os seguintes jogos: Dia 3 de junho, Bélgica 3 x 0, Dia 7 de junho, México 4 x 0 e Dia 10 de junho, União Soviética 2 x 0. Totalizando nenhum ponto conquistado, nenhum gol a favor e nove contra.