Português Italian English Spanish

A África tem (e conta) sua própria história


Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com

 

A África tem (e conta) sua própria história 

Foto: Wikimedia Commons

Somente a partir do segundo quartel do século XX é que a história africana tradicional começou a emergir novamente e a ganhar status de parte da história universal.

Entende-se como história tradicional da África, aquela acontecida antes da chegada dos Árabes e dos europeus, que transitavam por aquelas terras desde os finais do século XV (antes inclusive, no caso dos mercadores árabes), espoliando as riquezas minerais e a captura de seres humanos para escravizá-los, culminando com a partilha do território africano entre as potencias europeias no Século XIX, a partir da Conferência de Berlim[1].

Sobre o momento atual de resgate da verdadeira história africana, Ki-Zerbo diz que se foi o tempo em que nos mapas-múndi, o continente africano era apontado com a frase que resumia o conhecimento a respeito dele: “ibi sunt leones”, ou seja, “Aí existem leões” e prossegue dizendo que: “Depois dos leões, foram descobertas as minas, grandes fontes de lucro, e as tribos indígenas, suas proprietárias, mas que foram incorporadas às minas como propriedades das nações colonizadoras”.

Ao apresentar as fontes próprias da África, o referido autor mostra que gradativamente as sombras e a obscuridades que cercam o passado desse continente, vão sendo trazida à luz, e mostrada por outros pontos de vista, constituindo assim, um desafio para a curiosidade humana, já que a história africana é pouco conhecida e arraigada nos valores culturais dos europeus, que a escreveram de acordo com sua visão e seus interesses, levando a fazer uma comparação com um filme, que teve partes cortadas e é assim mesmo que nos chega a história da África.

Essa visão eurocêntrica foi adotada por muitos autores, de todos os continentes, que reproduziram um discurso preconceituoso e inconsistente, que pode ser observado de forma explícita em Hegel, quando este autor, afirma de forma categórica, que: “A África não faz parte da história mundial”, justificando a seguir, que: “Nela não há nenhum movimento ou desenvolvimento para mostrar, e o que por ventura tenha acontecido nela, melhor dizendo, no norte dela, pertence ao mundo asiático e europeu”, e prossegue dizendo que:

Cartago foi um momento importante e passageiro; mas como colônia fenícia pertence à Ásia. O Egito é a transição do espírito humano do Oriente para o Ocidente, mas não pertence ao espírito Africano. Na verdade, o que entendemos por África é algo fechado sem história, que ainda está envolto no espírito natural. (HEGEL, 2008. p. 88)

Fontes muito antigas, redigidas por mercadores árabes, nos ajudam a elucidar um pouco do passado africano, embora, seja uma fonte europeia, de origem árabe, outro relato de importância histórica, mas que não pode ser levada ao pé da letra, é “A Descrição da África”, de Leão, o Africano, um muçulmano espanhol, que se refugiou em terras africanas após seu povo ser expulso da Península Ibérica.

Essa é a grande dificuldade de se trabalhar com as fontes africanas, que são: a arqueologia e a tradição oral, pilares do conhecimento histórico do continente, e não é possível estabelecer uma hierarquia entre elas, embora a arqueologia seja a mais reveladora, pois é a que menos sofreu com a ação dos interesses de outrem, como são os casos das histórias orais e dos relatos escritos por terceiros, já que os antigos povos africanos era ágrafos.

Assim, podemos ver que a África tem sua história e está procurando escrevê-la de forma própria, mostrando ao mundo seus pontos de vista, colaborando assim, para a construção de uma verdadeira história universal, conforme as palavras de Ki-Zerbo (2010, p. 61), ao dizer que:

Enquanto a busca desse passado pode ser, para os estrangeiros, uma simples curiosidade, um exercício intelectual altamente estimulante para a mente desejosa de decifrar o enigma da Esfinge, o sentido real dessa iniciativa deve ultrapassar tais objetivos puramente individuais, pois a história da África é necessária à compreensão da história universal, da qual muitas passagens permanecerão enigmas obscuros enquanto o horizonte do continente africano não tiver sido iluminado. (KI-ZERBO, 2010, p. 61)

Para o autor supracitado, é preciso que o homem africano se interesse por sua história, como uma parte essencial dela, pois é assim, que será possível não apenas ver e se reconhecer, mas também beber e recuperar suas forças, para prosseguir adiante na caravana do progresso humano.

PARA SABER MAIS: AZIZ, Philippe. Os Impérios Negros na Idade Média. Rio de Janeiro: Oto Pierre Editores. 1978. (Grandes Civilizações Desaparecidas); HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da História. Brasília: UnB. 2008.     

 

[1]  A Conferência de Berlim, que foi realizada entre 19/11/1884 e 26/02/1885, teve como objetivo organizar, na forma de regras, a ocupação da África pelas potências coloniais e resultou em uma divisão que não respeitou nem a história, nem as relações étnicas.