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A Costa Oriental Africana e sua origem: Autóctones ou Imigrantes?

A Costa Oriental Africana e sua origem: Autóctones ou Imigrantes?

Data de Publicação: 19 de setembro de 2020 08:00:00

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com

 

A Costa Oriental Africana e sua origem: Autóctones ou Imigrantes?

“A História da África medieval é cheia de ambiguidade, incertezas, de dúvidas. Só as futuras descobertas da arqueologia nos permitirão, talvez, preencher as lacunas consideráveis dessa história”

(AZIZ, 1978, p.12)

A Costa Oriental africana, região banhada pelo Oceano Índico, engloba os países costeiros, insulares, e também, alguns do interior, hoje não banhados pelo mar, mas herdeiros dos Swahílis, antigos povos que habitavam aquela parte da África. Em algumas literaturas, Egito e Sudão, no norte do continente, também são apontados como pertencentes às áreas da costa oriental, também denominada na antiguidade, de Azânia[1] e não serão aqui retratadas. pois destoam das demais áreas, tanto na origem, como entre outros aspectos (socialmente, organizacionalmente, culturalmente,...).

Desde tempos idos, a costa oriental da África viu o estabelecimento de relações comerciais entre a populações nativas, sobretudo, os bantos e os árabes, dando origem a grandes mercados, que seriam gêneses de grandes cidades-estados, como Mogadíscio, Malindi, Mombaça e Kilwa, cada qual, com seu próprio governante, competindo entre elas, pelo controle do comércio do ouro a partir do sul. Embora politicamente desunidas, compartilhavam da mesma religião, o Islã, assim como a língua e a cultura Swahíli, próprias dos afro-árabes, fusão de elementos bantos e árabes.

Massao e Mutoro (2010) discorrem acerca da discussão de que os habitantes da costa oriental serem descendentes dos nativos, ou seja, se eles são autóctones, ou se são frutos de imigrações de povos nômades árabes, que em um passado remoto, percorreram aquelas terras em busca de novas rotas comerciais, e por ali, fundaram entrepostos e cidades e acabaram por se estabelecerem no local. Os autores, afirmam que tal questão visa à correção do errôneo quadro posto por historiadores e arqueólogos da escola de pensamento colonial, que se baseiam em fontes externas apoiadas em dados incompletos, apresentando apenas uma síntese da história dos comerciantes e colonizadores estrangeiros, considerando-os, como a origem da civilização da costa e defendem que “A história da costa oriental da África e de seus arredores é a história das populações autóctones da África e de sua interação com o meio ambiente”. 

As áreas em questão são caracterizadas por vestígios de assentamentos humanos, cuja originalidade cultural poderia se comprovar o fato desses primeiros povoamentos serem, oriundos de uma população africana autóctone, já que em escavações de antigas cidades, os materiais utilizados para erguer as moradas e outras edificações, não são utilizados nenhum material que não seja encontrado em âmbito local, como os corais, as pedras calcárias, argamassas e gessos fabricados no local, desde tempos idos.

Esse importante fator ajudaria a refutar a tese tão utilizada para se afirmar que a costa africana, banhada pelo Índico, fora inicialmente colonizada por povos árabes, que ali, erigiram as primeiras construções.

Essa teoria, segundo Massao e Mutoro (2010, p. 708) se baseiam, ao fato de que a maioria dos documentos escritos anteriores ao século X e XI, terem sido, redigidos em árabe, e escrevem que:

De fato, imigrantes do islã chegaram ao norte da costa oriental da áfrica a partir do século II e, ao sul, bem antes do século V. Porém, é preciso esperar o século VIII, para que uma civilização costeira propriamente islâmica, a dos shirazi, se diferenciasse das outras sociedades da costa. (MASSAO; MUTORO, 2010, p. 708).

Entretanto, Massao; Mutoro (2010, p. 687) nos mostram que a maioria das obras que falam dos primórdios da costa leste da África, como originária da imigração árabe, não nos parece satisfatória, pois os autores fracassam, ao aplicarem a metodologia tradicional, baseados em pesquisa e abordagens com a visão colonialista, percebendo a cultura costeira, como um conjunto de traços distintivos nos campos das idéias, crenças, estruturas mentais e valores dos povos, emanados a partir de centros culturais superiores, situados no Oriente Médio.

Essa teoria, não leva em conta, que houvesse o surgimento de uma cultura resultante da mescla e da adaptação dos árabes em regiões estranhas aos seus costumes, com outros povos, nativos ou não, já que desde muito cedo, as áreas em questão, atraíam mercadores de todos os lugares que encontravam no local, produtos de grande valor comercial, como o ferro, o sal, tartarugas, marfim, entre outros itens.

Se “ao tomar africanas, como esposas e concubinas” e com elas, aprenderam a língua local, e se “adaptaram às condições e hábitos da terra” nos dá a informação, que as áreas costeiras do leste africano, já eram habitadas antes da chegada dos árabes, fato também deixado claro, por Jackson (1964, p. 1592), embora seu relato seja recheado de preconceito eurocêntrico[2], nos diz que: “Os nativos da Somália não são negros, e pretendem-se ser descendentes de árabes. Pertence a uma bela raça de avantajada estatura, (...) e de traços semelhantes aos egípcios”, e prossegue dizendo ser este povo, “bárbaro e rebelde, composto na maioria de fanáticos maometanos que muito tem dado que fazer aos europeus, desde o estabelecimento do protetorado (Britânico) em 1884”

Quando os bantos, ainda nos primeiros séculos de nossa era, começaram a se espalhar pelas praias do índico, ali já existiam, sobretudo nas ilhas contíguas a terra firme, pequenos entrepostos comerciais em que chegavam navios de diversas nações distantes, como: romanos, árabes, entre outros... Desta maneira, é possível verificar a possibilidade de ao mesmo tempo afirmar a condição autóctone dos primeiros habitantes da costa oriental, a partir de rotas migratórias de povos de língua banto, assim como, não é de todo contraditória, a veracidade de que ao mesmo tempo, povos estrangeiros, já aportassem nas ilhas litorâneas em busca de suprimentos de valor comercial, como o sal, entre outros itens, sem que um não soubesse (ou ignorasse), a existência do outro. 

No campo da literatura, antigos autores árabes descrevem uma costa habitada e, mais importante ainda, controlada pela população autóctone Zandj, povo não muçulmano, que visitou a costa pela última vez em 304, sendo a mais antiga descrição datada, indicando o ano 500 da Hégira (calendário muçulmano), ou 1.107 do calendário cristão e localizada na mesquita de Kizimkazi, na ilha de Zanzibar, aliada a história oral, importante fonte na reconstrução da história africana tradicional, registradas em crônicas árabes, que podem esclarecer aspectos dos povos ainda não conhecedores da escrita, embora essas tradições se tornarem pouco confiáveis, por serem de épocas há muito passadas e que acabam sendo deturpadas com o passar dos tempos.

A partir do que foi aqui apresentado, possibilita-nos a afirmação de que a parte leste da costa africana foi palco de lentas transformações de um processo histórico, que levou ao menos cinco séculos para se consolidar, pois na medida em que as sociedades costeiras se tornavam cada vez mais complexa, o comércio se desenvolvia com rapidez e, a interação dos nativos, com os negociantes árabes intensificavam-se, formando um povo com características peculiares que se alastraram ao longo da costa e, inclusive, para alguns pontos do interior, permitindo que afirmemos que esses povos são ao mesmo tempo, autóctones e imigrantes. 

PARA SABER MAIS: AZIZ, Philippe. Os Impérios Negros na Idade Média. Rio de Janeiro: Oto Pierre Editores. 1978. (Grandes Civilizações Desaparecidas); GRANDES Impérios e Civilizações – África: O Despertar de um Continente. Madrid: Edições Del Prado, 1997; JACKSON, W.M. (Ed.). Viagem pelo Continente Negro: As tribos Nativas e a Ação dos Europeus (1579-1603) São Paulo: Gráfica Editora Brasileira, 1964. (Coleção: O Mundo Pitoresco, Tomo 7); MASAO, Fidel T; MUTORO, Henry W. A Costa da África Oriental e as Ilhas Comores in EL FASI, Mohammed (Coord.). História Geral da África III: África do século VII ao XI. – 2. ed. rev. – Brasília: UNESCO, 2010; SILVA, Alberto da Costa e. A Enxada e a Lança: A África antes dos Portugueses.  5. Ed., ver. E ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.                                                                                                                    

 

[1] Azânia é uma designação para a Costa Oriental da África, utilizada, tanto por Pérpilo, quanto por Ptolomeu. (SILVA, 2011, p. 344)

 

[2]  Eurocentrismo corresponde a uma expressão que emite a ideia de que a Europa e seus elementos culturais são referência no contexto de composição de toda sociedade moderna, se mostrando como uma doutrina que toma a cultura europeia como a pioneira da história, se enquadrando como uma referência mundial para todas as nações, como se apenas a cultura Europeia fosse út.

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