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Em campo vermelho: o futebol na cortina de ferro

Data de Publicação: 28 de setembro de 2020 19:05:00

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com

 

Em campo vermelho: o futebol na cortina de ferro

Estrela Vermelha conquistou a Champions League em 1991

Com falso amadorismo, cientificidade a serviço do esporte, organização estatal e equipes competitivas que surpreenderam ao conquistar títulos importantes desbancando favoritos, o futebol dos países socialistas marcou época e deixou saudades aos amantes do esporte com feitos lembrados até os dias atuais, quando antigas potências futebolísticas lutam para voltar aos tempos de glórias dos tempos em que o comunismo dividia o mundo.

Com a derrocada do bloco socialista no início dos anos de 1990, pondo um fim na “Guerra Fria”, que dividiu o mundo desde o término da II Guerra, várias histórias ficaram somente na lembrança, e no futebol não foi diferente, quando clubes e seleções outrora vencedoras, desapareceram ou deixaram no passado sua trajetória de vitórias.

Em tempos anteriores à internet era mais fácil manter sigilo sobre aspectos da vida cotidiana do outro lado da “Cortina de Ferro”, sobretudo, com a vigilância cerrada da KGB, da Stasi e de outras agências de inteligência do mundo socialista, quando havia a sensação de que eles sabiam alguma coisa que ninguém mais sabia. Elas seriam aliadas das equipes competitivas, que disputavam títulos europeus e olímpicos, chegando as fases decisivas da Copa do Mundo em diversas oportunidades.

Durante todo o tempo em que o mundo se viu dividido em dois grandes blocos de influência, os capitalistas liderados por Estados Unidos e Inglaterra de um lado, e do outro, os socialistas, sob orientação da União Soviética e em menor grau, pela China, foi este grupo, os maiores vencedores do torneio olímpico de futebol e há uma grande razão para isso, pois durante muito tempo, não era permitido aos atletas profissionais de participarem dessa competição.

No mundo socialista, todos os jogadores eram “amadores”, apesar de receberem extra-oficialmente salários ou trabalhos de fachada somente para se dedicarem ao esporte, enquanto que os demais países mandavam para os jogos, equipes de jovens das categorias de base de seus clubes. E foi dessa forma, que os países socialistas conquistaram nove medalhas de ouro, oito de prata e sete de bronze, contra duas de ouro, três de prata e quatro de bronze, das nações capitalistas entre os anos de 1948 (Primeira edição dos jogos no pós II Guerra) até 1988, última edição antes da derrocada comunista, em 1990.

O selecionado húngaro é o maior vencedor desse período, tendo conquistado a medalha de ouro em três oportunidades (1952, 1964 e 1968), a de prata em 1972 e a de bronze em 1960.  Em Copas do Mundo, as melhores campanhas de países socialistas aconteceram nas Copas de 1954 e 1962, quando respectivamente Hungria e Tchecoslováquia ficaram com o vice-campeonato da competição. 

Já entre clubes, inúmeros foram os esquadrões do Bloco Socialista, que se destacaram no cenário futebolístico mundial, com destaque especial para ao menos cinco equipes, Honved (Hungria), Dínamo de Kiev (União Soviética), Dukla Praga (Tchecoslováquia), Estrela Vermelha (Iugoslávia) e Steaua Bucareste (Romênia).

Base da Seleção Húngara na Copa do Mundo de 1954, considerada uma das melhores de todos os tempos, apesar de não ter vencido o torneio, o Honved contava com a genialidade dos craques Puskás, Czibor, Kocsis, Bozsik e teve seu melhor momento na década de 1950, quando deixou de ter o antigo nome, Kispesti e passou a ser o time controlado pelo exército, após a adoção do país ao socialismo.

O clube conquistou cinco títulos em dez anos, antes de ver seus atletas debandarem para o futebol espanhol e cair no ostracismo, que duraria até os anos de 1980, quando o clube voltaria a ser vencedor, com oito títulos nacionais em treze anos e já sem o apoio das forças armadas e do socialismo foi rebaixado à segunda divisão nacional em 2000, voltando em seguida, mas sem nunca recuperar o prestígio perdido.

Representando muito mais que os comunistas, o Dínamo de Kiev, clube da Ucrânia, anexado à União Soviética contra a vontade da maioria da população e novamente independente após o fim do socialismo e a fragmentação da URSS em 1990, era o símbolo maior do orgulho regional e a válvula de escape do povo ucraniano contra o regime opressor de Moscou. O clube conquistou por duas vezes a Recopa Européia, segunda competição mais importante do “Velho Continente”, e ficará marcado como o maior detentor de títulos do Campeonato Soviético, já que o mesmo não mais existe.

Fato corrente no socialismo, que se utilizava do futebol como instrumento da máquina estatal, na tentativa de aproximação da população com o regime, os clubes passaram a ser relacionados com órgãos públicos a assim, o Dínamo de Moscou foi identificado com a GPU, a Polícia Secreta Soviética, caminho seguido pelo homônimo de Kiev, que levava para seus quadros os melhores jogadores dos outros times locais, em troca de emprego na GPU, fato que inicialmente disseminou o ódio ao clube, findado com as boas campanhas que fizeram fazer frente com o poderio dos times da capital e assim manifestar o orgulho do povo ucraniano na multiplicidade étnica da União Soviética.

O Dínamo foi o único clube da região a disputar a primeira edição do Campeonato Soviético, em 1936 e assim foi até o inicio da Segunda Guerra Mundial, quando o torneio contava com o time de Kiev e outros de Moscou, Leningrado (atual São Petersburgo), Tbilisi e Stalino (atual Donetsk), que apesar de estar em território ucraniano, tinha forte influência russa.

Em 1941 a competição foi interrompida pela guerra, e a região de Kiev ocupada pelas forças da Alemanha Nazista. Com a mescla de jogadores do Dínamo e do Locomotiv, também da cidade foi formado o FC Start, e este foi desafiado pelo Flakelf, equipe formada por jogadores da elite da Luftwaffe, a força aérea alemã. Foram duas vitórias do Start, 5 a 1 e 5 a 3, o que acarretou na prisão de vários jogadores locais, que sofreram torturas e foram enviados para campos de trabalho forçado pela Gestapo, a polícia secreta de Hitler.

“Durante os anos de guerra, o futebol soviético não sobreviveu à “Operação Barbarossa”, nome-código para a invasão nazista ao país em 1941, tendo reaparecido à medida que as vitórias do Exército Vermelho restauraram a soberania do país” conta Agostino (2002).

Aos o conflito bélico o clube passou por um período de reconstrução e somente em 1954 o clube levantou seu primeiro caneco, a Copa da URSS. Assim, o Dínamo começou a freqüentar as primeiras colocações na tabela do campeonato e conquistar seu primeiro título nacional, que se repetiria pelos dois anos seguintes. Após o tri-campeonato, o clube amargaria um jejum de vitórias que somente seria encerrado em 1974 e repetido no ano seguinte, quando além do Bi nacional, levantou também seu primeiro troféu continental ao vencer a Recopa, feito repetido em 1986. Com o fim do regime comunista e a independência da Ucrânia, o Dínamo reinou sozinho no novo país, vencendo nove dos dez primeiros campeonatos, e pode ser considerado o único clube da “Cortina de Ferro” a manter seu brilho sem o apoio do antigo regime.

Base da seleção Tcheca em três Mundiais, incluindo o de 1962, disputado no Chile, na qual conquistou o vice-campeonato, ao perder de 3 x 1 para o Brasil, que vencia ali, seu segundo mundial, o Dukla da capital, Praga, foi por oito vezes campeão da Liga nacional, além de vencer quatro Copas da Tchecoslováquia e um segundo lugar na Copa dos Campeões da Europa.

Adotado como o “Time do Exército”, começou nos anos de 1950 a montar um esquadrão que chegou a derrotar o Botafogo de Garrincha e Nilton Santos na semifinal do Torneio da Antuérpia, na Bélgica, em 1956, por 1 x 0, competição vencida pelo time tcheco e no ano seguinte, em partida amistosa realizada no México, a vítima seria o Santos de Pelé, vencido por 4 a 3. Esse esquadrão seria a base do elenco vice-campeão do Mundo, quando perdeu a final por 3 x 1 para o Brasil, selando sua melhor participação em mundiais.

Por ironia, a maior glória do Dukla foi conquistada nos EUA, principal rival do comunismo, na primeira tentativa concreta de impulsionar o futebol naquele país, que organizou uma competição, na década de 1960, que contou com a participação de clubes da Europa e da América do Sul. Na grande final os tchecos derrotaram por duas vezes os ingleses do Everton, pelo placar de 7 x 2 e 2 x 0, garantindo o triunfo socialista em solo americano.

Com o envelhecimento e a conseqüente aposentadoria dos jogadores que compuseram a geração de ouro do time, o Dukla atravessou os fins dos anos de 1960 e quase toda a década de 1970, com apenas uma conquista, em 1977, fato que se repetiria em 1979 e 1982, além dos títulos da Copa em 1981, 1983, 1985 e 1990, ano que marcou o final do comunismo. O time, que apesar de vitorioso, não tinha uma grande torcida e sem o apoio do exército, caiu para a 2ª divisão e declarou falência, dando origem ao FK Pribram, que carrega a história do Dukla, porém sua sina é lutar contra o descenso e possivelmente a extinção, como o clube que o originou.

Vencer a Copa dos Campeões da Europa, maior competição entre clubes do continente era privilégio apenas para times do mundo ocidental até 1986, quando esta escrita foi quebrada pelo Steaua Bucareste, da Romênia, liderado por Marius Lacatus e George Hagi, que brilhariam também com sua seleção nacional na Copa de 1994, nos EUA. Criado em 1947, antes do comunismo chegar ao país, o clube foi um anseio dos membros das forças armadas, que por motivos óbvios, ganhou a alcunha de “os Militares”.

Soberano nas disputas nacionais, graças a grandes jogadores e pela “forcinha” de seu mecenas, Valentin Ceausescu, filho de Nicolae, o homem que conduzia o destino dos romenos desde 1965, o Steaua teve seu apogeu em 1986, quando venceu a Copa dos Campeões, jogando na Espanha e derrotando o poderoso Barcelona. Após o fim do regime comunista romeno, em 1989, que culminou na execução de Nicolae e na prisão de Valentin, ocorreu o desmanche na equipe, que exportou seus principais jogadores, como Hagi, vendido ao Real Madrid e Lacatus para a Fiorentina. O clube continuou nas mãos dos militares até ser vendido, em 1998, para um empresário local, continuando a vencer títulos nacionais, mas sem brilho em termos continentais.

O último grande título de um clube do bloco socialista, e o maior deles, foi conquistado pelo Estrela Vermelha, da antiga Iugoslávia (país formado por diversas etnias (sérvios, croatas, bósnios, eslovenos, montenegrinos, macedônios e kosovares), que se sagrou campeão mundial no ano de 1991. Fundado na região da Sérvia, após a II Guerra, o Estrela foi idealizado por membros da Aliança Unida da Juventude Antifascismo, ainda sob os ideais do nacionalismo, o que contribuiu para sua popularidade, o clube também acabou sendo apadrinhado pelo Ministério do Interior, garantindo assim, o peso institucional na máquina estatal comunista.

O clube foi se firmando como potência futebolística do país, rivalizando com Partizan, chegando a final da copa dos Campeões, quando foi derrotado, porém, uma nova mentalidade imperou no clube em meados dos anos de 1980 e sua diretoria passou a buscar os jovem talentos por todo o país, entre eles, Dragan Stojkovic. Em uma época em que começava certa abertura capitalismo, o poderio financeiro por trás do Estrela Vermelha, fez toda diferença.

Com a conquista do campeonato nacional na temporada 1987/1988, o clube voltou a garantir uma vaga na Champions e mais uma vez fez bonito, embora tenha caído nas quartas de final para o Milan, o campeão daquele ano.

O Título nacional da temporada 90/91 foi o último da Iugoslávia unificada, (no ano seguinte, Croácia e Eslovênia se tornariam independentes) e novamente a chance na Champions, e dessa vez, a vitória chegou, sendo o maior título do Clube e do país, que acabava ali. Com uma equipe competitiva, mas sem atrair a atenção ou favoritismo para si, o Estrela Vermelha foi eliminando seus adversários de um a um, Grasshopper (Suíça); Rangers (Escócia); Dynamo Dresden (Alemanha Oriental), Bayern de Munique (Alemanha Ocidental), na semifinal e os franceses do Olympique de Marseille na grande finalíssima, vencida por 5 x 3 nas penalidades máximas, em partida disputada em jogo único, na cidade italiana de Bari, assim, o inédito título foi para Sérvia, ainda sob a bandeira iugoslava, mas o melhor ainda estava por vir.

Desde a década de 1960, a disputa entre os campeões da Copa Européia e da Libertadores da América, em uma única partida jogada em Tóquio, no Japão, dava ao vencedor o título intercontinental, com status de mundial, e assim, a temporada de 1991 foi terminada com chave de ouro, com o Estrela vencendo os chilenos do Colo-Colo, por 3 x 0, mesmo desfalcado de seus principais jogadores, já negociados com outros clubes da Europa. O Estrela Vermelha ainda se mantém em atividade, mas sem o menor resquício de seus áureos tempos, quando teve o mundo aos seus pés.

Para muitos, o “perigo vermelho”, iniciado no pós II Guerra e findado com a queda do Muro de Berlim, em 1989, que dividiu o mundo em duas grandes áreas de influencia, justificou intervenções militares em muitos países, (principalmente na América do Sul e Central), gerou batalhas por disputas de território (Angola, Afeganistão, Coréia, Vietnã, entre outros confrontos) e esteve na eminência de uma terceira guerra no episódio da “Crise dos Mísseis” em Cuba, não deixará a menor saudade, porém para os amantes do bom futebol, os esquadrões comandados por Puskas, Kopa, Blokhin Masopust, Hagi, entre outros craques do mundo socialista, ficarão para sempre na memória, por seu bom, bonito e competitivo futebol.

 

PARA SABER MAIS: AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer - futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Faperj / Mauad, 2002; DOUGAN, Andy. Futebol e Guerra: Resistência, Triunfo e Tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos Nazistas.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004; FREITAS, Armando; VIEIRA, Sílvia. O Que é futebol: Histórias. Regras. Curiosidades. Rio de Janeiro: Casa da Palavra: COB, 2006; PRADO, Flávio. O Arquivo secreto das copas: 1930 – 1954. São Paulo: Publisher Brasil. 1998; RAMOS. Roberto. Futebol: Ideologia do Poder. 2ª Ed. Petrópolis: Vozes. 1988.