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A resistência escrava no Brasil e a esperada (ou conquistada?) liberdade

A resistência escrava no Brasil e a esperada (ou conquistada?) liberdade

Data de Publicação: 24 de outubro de 2020 11:19:00

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com

 

A resistência escrava no Brasil e a esperada (ou conquistada?) liberdade

(PARTE I de 3)

A escravidão é uma das práticas mais antigas da humanidade, sendo desde os primórdios das civilizações a força motriz de desenvolvimento para povos e Impérios, sendo a ação condenatória aos derrotados em batalhas e invasões, que se viam forçados a trabalharem para a força dominante.

Com as Grandes Navegações, que resultou na chegada do europeu às Américas, o uso do trabalho cativo foi peça fundamental para o progresso das novas colônias e especialmente no Brasil, que por mais de duzentos anos serviu apenas para exploração de matérias primas para o reino de Portugal e baseou-se na mão de obra escrava, de africanos, trazidos à força, após as frustradas tentativas de escravizar os povos indígenas que aqui já habitavam.

O poder da Igreja e a “necessidade” de salvação da alma do negro, mergulhada no paganismo africano foi a justificativa para a escravidão, que “cobrava” na forma de serviços forçados, o “favor” da evangelização. A percepção de que essa prática poderia ser convertida em algo mais lucrativo, além do trabalho para o clero, foi o ponto de partida da transição para o escravismo, sempre com a legitimação da cristianização dos africanos.

Assim como é muito genérico falar de África, como um todo, já que existem vários povos, cada qual com a sua especificidade, idioma e cultura singular, não se pode falar em escravidão de uma única e imutável forma, pois ela variava devido ao tipo de serviço, tamanho das fazendas, localização geográfica e espaço temporal, pois o modo de agir com os cativos, variava de senhor para senhor e de um período de tempo para outro, como nos fala Mamigonian (2009, p.210) “A escravidão funcionava e era vivenciada de forma diferente nas grandes ou nas médias e pequenas propriedades, no meio rural ou urbano, ou num mesmo lugar no século XVII ou XIX”.

Por mais que possa parecer contraditório e antagônico, escravidão e liberdade caminharam juntas no Brasil do Século XIX, pois a promessa de alforria era a mais importante arma do senhor para manter seus escravos na lida, de forma a não causar conflitos e insubordinações que pudesse atrasar sua suposta saída do cativeiro, que na maioria dos casos ficava somente na promessa. Essa afirmativa é notada em Mamoganian (2009, p. 212), quando nos diz que “A dinâmica da escravidão brasileira implicava dar esperança de liberdade aos escravos que se mostrassem adaptados ao sistema, enquanto novos eram continuamente importados da África”.

Veremos nessas páginas como se deu a relação entre senhores e cativos e de que maneira, os escravizados se reuniam para formar Laços familiares e de convivência, para sobreviver (e até combater) o brutal sistema, que foi ruindo gradativamente, com início em 1831, com a assinatura da lei de proibição do tráfico negreiro, que originou o conhecido termo popular “Para inglês ver” e que se completou, com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

AS RELAÇÕES ENTRE SENHORES E CATIVO: VIOLÊNCIA X ACORDOS

Apesar do sistema escravista ter se constituído na base da força e da violência, o poder senhorial se pautou principalmente, na possibilidade de uso dessa força, tendo como ícones desse relação, as figuras do feitor, do chicote e do tronco, obrigando os cativos a criarem seus mecanismos para sua própria sobrevivência, de seu grupo e de suas manifestações culturais, que resultou na misturas de tradições de várias regiões da África, com tradições europeias, sobretudo, aspectos do catolicismo.

É comum vermos nos livros escolares, no cinema, e principalmente nas novelas, modos antagônicos de mostrar o período escravocrata brasileiro, em que é visto os cativo apanhando, não raro, até a morte, ou sendo tratado gentilmente pelo “bom senhor”, sendo as escravas da casa grande, as melhores amigas e confidentes das sinhazinhas. Diversos estudos apontam que não foi uma coisa nem outra, as mucamas não mantinham relações de “melhores amigas” com as filhas dos senhores e nem a violência física imperava a todo tempo, pois a morte ou o impedimento ao trabalho de um escravo, tido como “produto” de alto valor, acarretaria em grande perda financeira aos senhores, que impunha seu respeito e autoridade com a possibilidade de violência, ou seja, com ameaças. Em Queiroz (2003, p. 109) vemos uma rápida exposição dessa relação entre senhores e cativos:

“O castigo físico eventualmente sofrido, não poderia ser identificado como violência, pois possuía uma dimensão pedagógica, sendo em geral aceito pelos escravos. (...) O conceito de violência é inadequado para caracterizar o escravismo. A relação pessoal entre senhor e cativo, se fazia através de mediações, em um cotidiano no qual o negro desdobrava-se em estratégias, ora de resistência, ora de acomodação”.

Acordos e pactos entre senhores e cativos foram muito usuais e uma da principais razões para o sistema escravagista ter durado tanto tempo, pois essas concessões possibilitava que os escravos fizessem suas reuniões, batuques e festejos, diminuindo as tensões, e criando oportunidade para arranjos e reafirmações dos valores africanos e suas adaptações, que reconhecidamente, os senhores sabiam de sua importância para evitar assim, maiores transtornos, como pode ser visto em Amantino (2008, p. 258):

“Antonil dedicou partes de sua obra para discutir a importância das práticas culturais negras para a manutenção do sistema escravista, e advertiu aos senhores que “negar-lhes totalmente os seus folguedos, que são o único alívio do seu cativeiro, é querê-los desconsolados e melancólicos, de pouca vida e saúde’, e que, para evitar isto, deixassem seus escravos “criarem seus reis, cantar e bailar por algumas horas honestamente em alguns dias do ano”.

Como já fora citado, a escravidão não foi uma coisa una, diferenciando-se por tempo, localização e espaço, como pode ser notado em Rios (2005), que diz que alguns cativos moravam com suas famílias em senzalas separadas e tinham permissão para criar alguns animais e cultivar pequenas hortas, fruto de acordos e concessões, que imperava no Brasil colonial novecentista. Um fato curioso desta relação foi encontrar registros de escravos que podiam estudar, assim, aprendendo a ler e a escrever, porém era necessária a prévia autorização de seu senhor, como pode ser observado no anúncio do professor Damásio Bittencourt, da cidade de Curitiba, reproduzido no Boletim do Arquivo Público do Paraná (1987, p. 09), que trazia a seguinte informação:

“Tenho a honra de participar a V. Exª. Que, em data de 15 do corrente mês, nesta capital uma aula noturna de instrução primária, destinada a operários e escravos que, com o consentimento de seus senhores, desejam aprender ler, escrever e contar. A aula por mim dirigida conta hoje com 23 alunos. Dedicando-se ao ensino e instrução da classe menos protegida pela fortuna, só tenho em vista prestar um serviço ao meu país, sendo útil e melhorando a condição daqueles que mais precisam pelo seu estado e posição social. Curitiba, 22 de outubro de 1874. Ass: Damaso C. de Bittencourt”.