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A resistência escrava no Brasil e a esperada (ou conquistada?) liberdade

A resistência escrava no Brasil e a esperada (ou conquistada?) liberdade

Data de Publicação: 22 de novembro de 2020 09:15:00

Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio,
pela UNESPAR/UV (2014), Licenciado em História pela
mesma instituição (2014) e Bacharel em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo (MTE 26009-07 /RJ),
pela Faculdade de Filosofia de Campos – FAFIC, (2007).
E-mail: tidejor@gmail.com

 

A resistência escrava no Brasil, e a esperada (ou conquistada?) liberdade

(PARTE 3 de 3)

O GRITO DE LIBERDADE

Desfrutando do desejo de liberdade e das leis que agora os favoreciam, aliados com o enfraquecimento senhorial sobre seus atos, os cativos, durante o período da colheita do café de 1888, deixavam as fazendas em cada vez maior número, causando grande temor em seus senhores, que já vislumbravam enormes prejuízos caso a safra não fosse colhida. A Solução encontrada pelos fazendeiros paulistas foi a de conceder alforrias incondicionais, como forma de manter a mão de obra na fazenda para garantir a colheita daquele ano.

Sobre esta atitude, Matos (1998, p. 235), nos mostra o caso do fazendeiro Paula Souza, que aderiu a esta iniciativa de alforrias e manteve boa parte da antiga escravaria, agora como assalariados e condicionados a fazer na fazenda todos os gastos que teriam que fazer na cidade ou em qualquer outro lugar e assim, o mesmo declarava: “Nada lhes dou; Tudo lhes vendo, inclusive um vintém de couve ou de leite”, e a autora continua afirmando que mesmo os itens básicos para o trabalho, eram mantidos sob o monopólio senhorial, como  as ferramentas e os carros de boi, alugados por valores menores que na cidade, fazendo com que o total arrecadado com os trabalhadores chegassem a quase o total pago pelo trabalho. Essa prática foi quase que despercebida no período da escravidão e ainda é utilizada de maneira clandestina nos dias atuais, quando no final da jornada, o trabalhador fica com uma ínfima parte financeira, quando não, devendo ao seu patrão.

Mesmo tendo sido preparado paulatinamente desde 1931, o fim da escravidão no Brasil pegou quase que de surpresa a maioria dos fazendeiros, que não se prepararam para a chegada do dia do fim do trabalho servil.

Sobre as ideias religiosas dos últimos anos do período do cativeiro, podemos observar em Houston (1884) e Canabarro (1887), como duas falas com uma distância temporal de três anos, proferidas em locais tão distantes (Rio de Janeiro e Pelotas), de correntes religiosas distintas (Católica e Presbyteriana), emitem semelhantes opiniões sobre a escravidão em seus tempos finais.

Houston diz da impossibilidade de se encontrar a origem da escravidão, pois a mesma é praticada desde tempos remotos, quando se faziam dos vencidos, cativos dos vencedores. Entre os judeus, afirma o religioso, existiam três formas de um homem se tornar escravo de outro, pela pobreza, perpetração de um roubo ou através do exercício arbitrário da authoridade (sic) paterna, mas pondera:

“Prezados Ouvintes: o Christianismo de maneira alguma sanciona a escravidão e baseando-nos nas palavras do apostolo temos um forte argumento para favorecer todo e qualquer movimento que tenha por fim a libertação do captivo, que: “A liberdade é uma benção que não deve ser despresada (SIC) por ninguém”. (HOUSTON, 1884).

E segue falando da questão da liberdade dos escravos brasileiros, dizendo que as ideias abolicionistas, não mais afetam somente a imprensa, mas até a alta administração do Estado; e afirma que o assunto se transformou em uma questão popular ou nacional e conclui:

“Vimos que a servidão judaica de modo nenhum authorisa ou justifica a continuação e existência da escravidão actual. E isto porque Ella não foi ordenada pela Lei de Moysés, mas somente tolerada, e de tal modo, que mal pode ser qualificada de escravidão. O escravo tinha direitos que não deviam ser violados nem pelo senhor nem pelo governo”. (HOUSTON, 1884).

Também exaltando em seus sermões o término do trabalho escravo no Brasil, Canabarro (1887, p. 11), ponderando e não deixando passar a culpabilidade da própria igreja séculos antes, diz que:

“Que importa que a Igreja por seus pontífices tenha sempre condemnado tão infame procedimento, lançado sobre elle as mais severas penas?” se esquecendo completamente que a implementação do famigerado sistema, foi legitimado pelos padres Jesuítas, ainda no Século XVI, justificando a escravidão como um meio de o africano compensar a salvação, de ser batizado na fé cristã e assim, se ver livre do paganismo”.

Apontando no mesmo caminho, Allencastro (2000, p. 168) nos fala acerca desta afirmação de Canabarro, que seriam os padres jesuítas, um dos principais legitimadores deste sistema servil, ao relatar que:

“Seria, no entanto, excessivo julgar que a legitimação do tráfico decorre exclusivamente da política colonial da Coroa e da atividade dos negociantes negreiros. Boa parte dos missionários, e singularmente os jesuítas da África e da América portuguesa, tiveram um papel decisivo nesse processo”.

Então, é possível perceber, que o 13 de maio foi apenas uma data simbólica, já que não mais havia nenhuma condição da manutenção do sistema escravista que vigorou por mais de 300 anos no Brasil, a assinatura da Lei Áurea, não foi para beneficiar os cativos, que já abandonara a lida fazia tempos, e sim para proteger as elites temerosas de uma vingança ou rebelião, como descreveu Matos (1998, p. 205) ao afirmar que: “Um caso fatal, tinha que ser aprovada, pois do contrário seria a anarquia, uma desorganização completa do trabalho; o triunfo do negro sobre o branco, a vitória do escravo sobre o senhor”.

Assim, os antigos escravos, agora “livres”, abandonados à própria sorte e marginalizados pela sociedade, já que a Abolição não deu nenhum suporte para que os mesmos pudessem construir suas vidas fora do cativeiro, vão compor a camada mais miserável das classes populares, pois no momento em que as portas das senzalas foram abertas, muitas outras se fecharam para o negro que lutou e contribuiu para a formação da nação brasileira e viu a senzala, o capitão do mato e a vontade senhorial serem substituídas pelas favelas e zonas periféricas das cidades, pela repressão policial e pelo sistema, nas figuras do próprio estado e pelos patrões.

CONSIDERAÇÔES FINAIS

Através destas linhas foi possível perceber algumas características da complicada relação entre senhores e escravos, as artimanhas dos cativos em aproveitar as brechas para se reafirmarem como grupo social, mesclando aspectos de diferentes povos africanos, com a cultura encontrada nas novas terras, moldando-as de formas diversificadas, para que aguentassem o sofrimento do cativeiro, mas mantivessem acessa a chama da “Mãe África”.

Caminhamos também pelo longo percurso que foi o período iniciado com as pressões inglesas, que culminaram na da Lei de 1931, proibindo o tráfico negreiro, que apesar de ter causado algum medo nos adeptos desta prática, não teve efeitos práticos, forçando uma corrida sem igual em busca de mais “cabeças africanas” para que não as faltasse no mercado brasileiro, forçando a criação de leis mais duras como a inglesa Bill Aberdeen (1845) e a Eusébio de Queiroz (1850), que vetavam definitivamente o comércio transatlântico de escravos, com essas leis, os preços subiram vertiginosamente e criou assim, o tráfico interno.

Era a primeira visão, de que a escravidão africana, base da economia e da sociedade colonial brasileira, iniciada dois séculos antes, findaria em um futuro não muito longo, embora uma data ainda não pudesse ser mensurada, a pressão interna e externa, criação de novas leis, sempre de caráter protecionista da classe senhorial, prevendo indenizações e trabalhos compensatórios dos cativos a serem libertos, foram o tom desse longo caminho até o treze de maio.

A escravidão no Brasil não aconteceu de forma unificada e suas variações temporais e espaciais, influenciaram também nas relações com os demais integrantes da sociedade, seja nas cidades, ou no campo, pois estas, não se resumia apenas a senhores e escravos, paralelamente existia uma gama de outros personagens, nem sempre lembrados, mas em constantes intercâmbios com eles, tais como: homens pobres livres, comerciantes, membros do clero, libertos, negros de ganho, as elites locais, entre outros grupos, que fizeram com que a vida no Brasil colonial e imperial, fosse de tamanha complexidade, que mereça sempre uma revisitação para que  pesquisadores possam explorar este rico período da história brasileira e reescrevê-lo a cada geração, sob novos olhares, perspectivas e influências.

A abolição da escravidão veio mais como proteção para os fazendeiros, que já não mais controlavam seus escravos, do que para benefício dos mesmos, pois não foi pensado, como esses homens, agora livres, seriam inseridos na sociedade, o que acarretou uma crescente favelização, sobretudo nos grandes centros, aumentando a violência e fazendo com que vivessem de maneira sub-humanas, vistas até nos dias atuais, gerando novas formas de escravidão, nas mãos de empresários, banqueiros e políticos, entre outros “senhores” frutos do capitalismo e da nova realidade do “Brasil Colonial” do Século XXI.

 

PARA SABER MAIS: ALLENCASTRO, Luís Felipe de. Trato dos Viventes: A formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Cia das Letras, 2000; AMANTINO, Márcia. Caxambu, Cateretê e Feitiçaria Entre os Escravos do Rio de Janeiro e Minas Gerais no Século XIX. In PAIVA, Eduardo França; IVO, Isnara Pereira. Escravidão, Mestiçagens e Histórias Comparadas. São Paulo: Annablume, 2008; FLORENTINO, Manolo; GÓES, José Roberto. A Paz nas Senzalas: Famílias Escravas e Tráfico Atlântico, Rio de Janeiro c. 1790 – c. 1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997; GRAF, Márcia Elisa de Campos. Imprensa Periódica e escravidão no Paraná. Curitiba: Grafipar, 1981; MAMIGONIAN, Beatriz Galotti. A proibição do tráfico atlântico e a manutenção da escravidão. (p. 207 – 233). In GRINBERG, Karla; SALLES, Ricardo (orgs). O Brasil Imperial, Vol. I: 1808 – 1831. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009; MATTOS, Hebe Maria. Das Cores do Silêncio: Os significados da Liberdade no Sudeste Escravista- Brasil, Séc. XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. QUEIROZ, Suely Robles Reis de. Escravidão Negra em Debate. In FREITAS, Marcos Cezar de (org.). Historiografia Brasileira em Perspectiva. São Paulo: Contexto, 2003; RIOS, Ana Lugão e MATTOS, Hebe. Memórias do Cativeiro: Família, Trabalho e Cidadania. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005; SLENES, Robert W. Na Senzala, uma Flor: esperanças e recordações na formação da família escrava no Brasil, Sudeste, Séc. XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999